O Assassinato de Agatha Christie - Sun Holiver
8 03 2008
Um incidente no museu britânico: a Pedra da Roseta é roubada. Agatha Christie, uma famosa escritora de romances policiais - sim, como se pôde presumir, Agatha Christie faz o papel de Agatha Christie - é chamada pela Scotland Yard para investigar o roubo da Pedra junto ao serviço secreto.
E essa tal de Sun Holiver? é britânica? estadunidense? australiana? não, não, é o nome de guerra de uma autora brasileira. O pseudônimo estrangeirizado de certo é uma estratégia para se vender mais. Afinal, é de conhecimento geral o descrédito dado às obras tupiniquins. O “legal” é sair atrás dos blockbusters literários consagrados no exterior. Assim, um nome inglesificado já é meio caminho andado.
Por falar em estratégia, o nome “Agatha Christie” no título (em letras garrafais, é claro) é mero oportunismo mercadológico. Se fosse “O Assassinato de Paulinho da Viola” não ia fazer menor diferença. A autora simplesmente se utilizou de um recurso, digamos… não muito legítimo: apropriou-se do sucesso de outrem pra tentar se inserir no mercado. Nada contra, mas se tivesse algo contribuir pelo menos poderia se justificar, o que infelizmente não é o caso.
E o tal “assassinato” também é mero chamariz. Quando se começa a leitura já se sabe que não haverá assassinato algum. É? e por quê? Simplesmente pelo fato de quem faz a narração de toda a história é a personagem-título. Se uma história é narrada por uma personagem, pressupõe-se que ela tenha sobrevivido para contá-la. Seria deveras inusitado algo do tipo: “ aquele sujeito rude com suas grotescas mãos de assassino pegou-me pelo pescoço e começou a estrangular-me. Então eu morri.” É, a personagem estaria narrando do Além… A trama se passa nos anos 50, período pré-segundo casamento de Agatha Christie. Se ela de fato morresse na história seria uma grande incoerência, Sun Holiver estaria ignorando várias publicações da escritora realizadas nos anos subseqüentes. De pensar que talvez isso não fosse um grande problema, afinal nesses anos 50 da autora já existia até escutas invisíveis ocultas em pequenos objetos.
Pelo título, é de se pensar que a história se tratasse de alguma invencionice a respeito da verdadeira causa mortis de Agatha Christie, o que seria bastante interessante. Poder-se-ia desenvolver uma narrativa em que a então velhinha de 85 anos não teria falecido por causas naturais, mas assassinada por algum fã que se tornou obcecado por homicídios e, é claro, culpa a autora por seu desvio comportamental. Envenenamento poderia ser a alternativa. Um fim de fato pertinente. Estaria em cumplicidade à obsessão da autora de finalizar suas personagens por via oral.
Há um aspecto interessante a se ressaltar: Agatha Christie, temerosa em sobreviver à Segunda Guerra Mundial, escreveu duas obras em que ela finalizava (uma em cada) duas de suas mais famosas personagens: Miss Marple e Hercule Poirot. Esses livros foram guardados e posteriormente publicados. A razão para isso é que ela não gostaria de que houvesse publicações que se utilizassem de seu sucesso e de sua criatividade sem sua aprovação. Bom, aí aparece uma brasileira que não só se apropriou do trabalho dela, o que ela tanto temia, mas de aspectos de sua própria história de vida. E de forma bastante constrangedora. Só para exemplificar: “(…) minha natureza de fêmea estava chamando por um macho que me acolhesse no seu reduto”. E o que é a pior: há várias sentenças como essa. É, Agatha Christie deve estar se revirando na cova.
Na introdução, a autora logo alerta “É preciso deixar que a imaginação crie asas e voe”. Bom, é preciso mesmo, e muita! Diretamente do nada, sem ter o que acrescentar, aparecem na história uns tais óculos capazes de propiciar a seus usuários uma visão do futuro. É pra matar. E não pára por aí: há sósias pra dar e vender, florais milagrosos… Tudo sem qualquer propósito.
O mais frustrante de tudo é que é notável o talento de Sun Holiver em criar sucessivas ações dentro de um mesmo mistério, como um quebra-cabeça em que cada parte só poderá ser entendida satisfatoriamente se for analisado como um todo. Ao menos é assim na primeira metade do livro, em que se começa a construir uma enigmática história do envolvimento de Agatha Christie com o serviço secreto de maneira extremamente criativa e tenaz à leitura. E ainda digo mais: de forma pouco vista nas obras de Agatha Christie.
Na segunda parte, porém, a narrativa torna-se excessivamente melancólica e repetitiva, passa a abordar quase que unicamente os anseios amorosos da personagem. É impossível não imaginar que a autora estava passando por sérios problemas afetivos no momento em que escreveu o livro. Chega-se ao ponto de deixar em terceiro segundo plano o tal mistério da história, passa-se a desenvolver pontos aleatórios em detrimento dos realmente relevantes ao enredo, e o que é pior, várias das “peças” inicialmente dispostas sequer são explicadas.
Em suma, muita estratégia comercial e pouco conteúdo. Leia e se decepcione você também.




pronto!
a tua crítica literária pro Jairo já tá pronta!
huueihiehiuehuiehue
muito massa!! certamente não irei ler o livro. depois de toda essa crítica, não chegarei nem perto! heuehuie
mas bem capaz hshshs
Convido a todos para conhecerem um blog recém-lançado sobre a Dama do Crime:
O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com
Um abraço.
atualizar pra que, né????